Burros velhos e cavalos jovens

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  • 18 Aug, 2020

Burros velhos e cavalos jovens

A empresa sábia terá em doses semelhantes duas tipologias de administradores e quadros de primeira linha – os burros velhos e os cavalos jovens.

Aos primeiros caberá sobretudo zelar pela conservação da empresa e aos segundos assegurar o seu desenvolvimento e crescimento.

A cooperação requerida às duas tipologias de animais de poder dentro da empresa constitui uma exigência a que se deve responder com inteligência e sentido prático.

É claro que a conjuntura ditará muitas vezes qual deve predominar – prudência ou energia – na governação da empresa, embora no plano ideal haja ambas na proporção exata.

O problema fundamental da gestão consiste, pois, no problema da proporção e tendo ela de ser bastante exata para evitar dinâmicas perversas então ainda maior é a dificuldade de governar uma organização.

Porque se a governação da empresa é excessivamente marcada pela prudência provavelmente perdem-se oportunidades de crescimento, arrefece a ambição ou perdem-se os colaboradores mais dinâmicos.

Pelo contrário, se a governação valoriza sobretudo a energia tomam-se riscos excessivos, desprezam-se opiniões mais sensatas e acredita-se sobretudo no que se quer ver, sem tomar em conta as ameaças ou falsas expectativas.

O problema do equilíbrio entre burros velhos e cavalos jovens só pode encontrar solução estável através do estabilizador demográfico (razão quantitativa) e do modelo de promoções (razão qualitativa).

A demografia influi decisivamente no balanceamento das preponderâncias, porque se o número de burros velhos for desproporcionado face ao número de cavalos jovens a organização tenderá para o conservadorismo cultural, acabando por se impor a regra da prudência em prejuízo de uma dinâmica de crescimento e ambição que promoveria o crescimento e a satisfação dos quadros mais jovens.

Inversamente, se a população dirigente é sobretudo composta de cavalos jovens constitui-se como valor fundamental a demonstração de energia e a criatividade, podendo acentuar-se a visão da empresa como projeto de rápido crescimento, com menor consideração pela rendibilidade e consolidação.

Já o modelo de promoções introduz no jogo do poder interno uma mecânica de equilíbrio que atua no plano temporal, podendo corrigir ou acentuar a predominância de uma das tipologias de dirigentes, usando um fator de aceleração da influência de uns sobre os outros.

É, pois, no modelo de promoções que fundamentalmente a questão do equilíbrio se joga, porque a distinção profissional acaba sempre por ser uma forma de legalizar a clonagem do modelo de dirigente que se quer ter no futuro – mais burros velhos ou mais cavalos jovens.

Paulo Fidalgo