Ao que leio na imprensa especializada internacional, os MBA de Harvard prometem ser honrados.
As obrigações de honra na vida empresarial foram explicitamente recuperadas no contexto académico devido às calamidades financeiras geradas por criminosos que aparecem credenciados com o tipo de formação que as grandes universidades, como Harvard, promovem.
A condenação judicial e a definitiva reprovação moral de alguns dos mais conhecidos Mestres em Business Administration constituiria uma desgraça para o negócio universitário de formação de executivos.
Desde há pelo menos três décadas que as grandes universidades anglo-saxónicas desenvolvem e exportam um modelo de formação de executivos baseado no pressuposto de ser a gestão um portefólio de saberes adjudicado à criação de valor para o accionista.
Contudo, a ideia de criar valor para o accionista também inclui uma perspectiva do gestor, segundo a qual quanto mais valor for criado para os donos da empresa maior deve ser a compensação financeira de quem gere a empresa.
Simplificando, diríamos que não é possível educar alguém a trabalhar esforçadamente para enriquecer accionistas anónimos – detentores provisórios de acções – se não fosse tacitamente aceite que tal enriquecimento deve ser “partilhado” com quem investe o seu talento e o seu tempo em negócios de alta rendibilidade, mas alheios.
Claro que o valor criado quando exportado sob a forma de dividendo para os accionistas traduz uma remuneração do capital investido, mas esse paradigma aplica-se apenas aos detentores de acções que têm uma visão estável da sua posição na empresa.
Para os demais, que serão quase sempre a maioria, criar valor acaba por traduzir-se em valorização da acção no mercado e, portanto, o recebimento dos accionistas depende das suas transacções sobre o capital da empresa que gerem mais-valias.
Este tipo de enriquecimento não constitui propriamente uma prestação financeira da empresa para os detentores de capital, sendo apenas o resultado de uma compra de acções por outros accionistas. Portanto, quem paga o valor criado são outros accionistas e não a empresa, que neste exercício não gasta um mísero tostão.
Naturalmente, aquilo que a empresa verdadeiramente paga é o dividendo e o valor deste também influencia a cotação do título, mas tem muito menor preponderância na opinião dos analistas e investidores do que outros factores subjectivos, como sejam a crença no valor futuro da empresa.
Quando o sistema educativo predominantemente frequentado pelos executivos empresariais aponta para a criação de valor “em mercado” fica bem claro que o sistema de gestão pretendido é simétrico de uma lógica bolsista, onde a especulação e a aposta sobre opiniões mais ou menos emocionadas e bem humoradas releva mais do que qualquer informação factual e contabilisticamente relevante.
A capacidade de um executivo agir motivado por um sistema de juízos de valor meramente conjunturais e opinativos é amplificada pelo treino académico, que louva no exemplo de muitos especuladores o objectivo fundamental de enriquecer com apropriação de valor em mercado.
Porém, enquanto o valor que é pago aos accionistas provém de outros accionistas e não da empresa, porque depende de uma transacção com outros accionistas que, esses sim, pagam o valor criado, aquele que é entregue aos executivos como salário ou complemento de desempenho subtrai-se diretamente ao bottom line.
Assim, os executivos têm uma despudorada vantagem sobre os que arriscam capital, porque não têm de sofrer as perdas bolsistas ou a imobilização do dinheiro, ganhando da empresa um percentual sobre o up side das ações que não têm e que hão-de comprar no futuro com um desconto que garante quase sempre mais valias chorudas.
É bem provável que um sistema de educação de executivos que ensina truques como se fossem técnicas de gestão, acabe por validar as artimanhas de apropriação ilegítima, chamando-lhes estratégia e plano de negócio.
Com isso, as universidades incitam malfeitores a melhorarem habilitações e constroem verdadeiras redes de criminosos morais, sempre dispostos a agirem por um prémio cujo merecimento pouco relacionado está com a perenidade e a solidez do negócio.
Que a crise financeira internacional tenha desmembrado algumas destas networks e a imprensa tenha posto a nu técnicas ilegítimas de tomar o que pertence a outros são boas razões para as universidades que fabricam MBA terem de cuidar da saúde moral dos seus alunos/clientes.
É, pois, natural que surjam sob forma de cadeiras/disciplinas de MBA algumas matérias que, noutro tempo, seriam objecto de educação familiar ou de catequese.
Ser honrado é boa coisa para se aprender na escola mas quem dera que a escola não desonrasse a família ensinando tudo sem qualquer ligação ao fim último que é o Bem.
Paulo Fidalgo
CEO da Marketividade


