O famoso espírito de equipa

A propósito da vitória do Benfica sobre o Real Madrid, depois de uma campanha medíocre da equipa da Luz no campeonato, fiquei a pensar no equívoco que se instalou em quase todos os “balneários” e, por simetria de raciocínio, nos departamentos de RH das empresas: a ideia de que compete ao treinador convencer jogadores profissionais a jogar o melhor que sabem.

Jogar, note-se, não no sentido romântico do miúdo que foge às obrigações para chutar uma bola no recreio, mas no sentido estrito, contratual e ruidosamente remunerado da coisa: entrar em campo, cumprir um plano, disputar cada lance como se dele dependesse a dignidade pessoal e, no fim, colher aplausos, prémios e milhões.

A pergunta que ninguém faz, por pudor ou medo de parecer politicamente incorreto, é simples: se não querem jogar, por que estão aqui?

Uma equipa não se escora numa soma de talentos, mas numa decisão anterior ao talento: a vontade de cooperar. O resto — tática, rotinas, automatismos — é carpintaria. Portanto, meus amigos, a matéria-prima das grandes equipas é moral: alinhar os egos com o objetivo comum, voluntariamente aceite.

Quem não aceita a estratégia, quem entende o companheiro como obstáculo e não como extensão, quem prefere a coreografia da vedeta ao trabalho invisível do coletivo, pode até ter génio individual, mas certamente não tem o espírito certo para “fazer equipa”. E, sem equipa, o génio é foguetório: ilumina muito, dura pouco, deixa fumo.

Daí o absurdo do “treinador pedagogo”, esse novo curador de consciências, obrigado a transformar profissionalismo em vocação, disciplina em autoajuda, compromisso em “engagement”. Como se a função do treinador fosse, além de desenhar o jogo, embalar adultos pagos para cumprir.

Talvez seja tempo de inverter o ónus da prova: não é o treinador que tem de carregar jogadores ao colo, são os jogadores que devem demonstrar, no seu interesse e por sua iniciativa, que merecem ser admitidos — e mantidos — na equipa.

Porque, camaradas, pertencer à equipa não é um direito natural, é uma escolha diária, confirmada no treino, no passe simples, na cobertura, no silêncio de quem trabalha sem câmara pronta para streaming.

Este raciocínio vale ainda mais nas empresas, onde se consolidou uma inversão perversa das obrigações básicas. Em vez de ser o trabalhador a querer trabalhar — com ambição, seriedade e respeito pelo projeto — exige-se ao “patrão” que seja uma espécie de diretor espiritual de filósofos relutantes, pessoas que encaram o trabalho como uma degradação da sua vocação lúdica.

É natural reivindicar salário, reconhecimento, progressão e propósito… mas com evidências quotidianas de alergia a qualquer coisa que pareça dever não há equipa de trabalho que vença a concorrência.

E uma empresa não é uma organização pedagógica para talentos sensíveis, mas uma construção coletiva, com metas, prazos e responsabilidade.

Terá dito Thomas Edison que “génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração”, verdade empírica que se aplica aos indivíduos e às equipas, sejam elas de futebol ou profissionais. Inspiração sem transpiração chama-se pose. E pose não ganha campeonatos, não fecha projetos, não salva trimestres, não sustenta cultura.

No fundo, a questão é menos de desempenho e mais de ética: ninguém pode ser arrastado para a cooperação. Ou se entra em campo para jogar com os outros, ou se fica na bancada do próprio ego — a aplaudir-se sozinho.

 

Paulo Fidalgo
CEO da Marketividade

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