O preço real da incompetência

O exercício do poder desperta toda uma série de instintos primitivos e comportamentos atávicos, cujos efeitos é necessário controlar de modo formal e informal para evitar a incompetência gritante, a pobreza endémica e porventura a ditadura ritualizada e persistente.

A divisão de poderes, o primado da Lei, a estabilidade do emprego público, a orgânica administrativa, são apenas alguns dos mecanismos que procuram garantir democraticidade no exercício do poder político e racionalidade económica na decisão política quotidiana.

O pilar fundamental da racionalidade económica nas políticas públicas só pode ser assegurado se houver consenso sobre a necessidade de competência técnica na construção da decisão política e não persistir a tolerância geral face à bizarra ideia de que, em política, a noção de competência técnica não se aplica.

Dir-me-ão que a competência técnica é um requisito da racionalidade da decisão em qualquer domínio da vida social e não é uma exigência autónoma da decisão política. É certo que sim, mas num País em que a predominância do público sobre o privado tem uma fortíssima tradição histórica, os riscos da incompetência técnica no exercício do Poder público potenciam os prejuízos de forma exponencial, dado o peso e a influência do Estado em todos os campos da vida social, designadamente o económico.

Gerir uma empresa ou outra organização é, essencialmente, compreender os efeitos das ações e das omissões num certo período – o exercício anual, o prazo do projeto, a vida útil da estrutura, o período de amortização, o prazo de recuperação do investido – porque isso determina o que se pode e deve fazer ou evitar que aconteça.

Esta gestão do tempo implica algumas ciências auxiliares e não se compadece com as crendices de pessoas que desprezam esse conhecimento. Porque quem não sabe é como quem não vê e não há pior desculpa para um mau decisor político que esta ideia de “não ver” as implicações óbvias do que faz.

A cegueira dos incompetentes chamados a decidir na política económica é muitas vezes ampliada por dois fenómenos bastante perigosos para a lucidez. O primeiro é ambição de «fazer História» a qualquer preço, que leva o decisor a imaginar que cada um dos seus gestos será esculpido em mármore pela posteridade e, por isso, há que comprar sempre a melhor pedra. O segundo é a fé numa espécie de «graça de Estado», que convence o decisor de que, no exercício do cargo, beneficia de uma infusão de providência divina que o protege contra o erro e  aleivosia.

Como facilmente se compreenderá, a combinação destes dois equívocos tem um poder destrutivo brutal, porque gera decisões económicas completamente irracionais, ignorando o conhecimento técnico necessário à determinação dos efeitos prováveis no tempo e sufragadas apenas pela ambiçãozinha de estatuária jacente. Basta olharmos à nossa volta para encontrarmos exemplos.

 

Paulo Fidalgo
CEO da Marketividade

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top